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Amores reversos


Durante anos ele aturou as suas crises de TPM. Gastava litros de gasolina só para levá-la pra jantar em Porto Alegre, no seu sushibar preferido. Dava banho no Alfredo, o poodle de estimação nos dias de folga. Aguentava os papos chatos do seu pai no churras de domingo e fazia cara de interessado quando sua irmã discursava sobre as guerras napoleônicas. Fazia cafuné na hora de dormir, ligava durante o dia pra perguntar se precisava de alguma coisa da rua e se estava bem. Era, definitivamente, o “namorido” que toda mulher pediria pro Papai Noel. Até o dia em que ela começou a implicar com as calças desbotadas dele, aquele boné de sempre, a monotonia da vida cotidiana, os amigos estranhos e a razão pela qual não dizia “eu te amo” a cada minuto. O fato é que ele se contentava com a trivialidade do feijão com arroz, enquanto ela queria escargot todos os dias. Ele era de Câncer, ela de Sagitário. Amor falido, segundo os astros.

Do dia pra noite, resolveu recolher os trapinhos e deixar aquele cara apaixonado sem o sofá da sala e sem o seu coração. Ele insistiu, escreveu emails, mandou rosas, pediu perdão e até comprou anel de compromisso pra provar sua paixão. Não adiantou. A vontade daquela garota era experimentar a adrenalina dos filmes do Telecine Action. Em alguns meses a vida dela estava do avesso e ele assistindo a tudo de camarote. Qualquer telefonema,corria para socorrê-la. Ajudou na mudança de endereço, se interessava pelas suas conquistas e, mesmo depois de anos, nunca deixava passar batido seus aniversários. Virou seu Superman exclusivo. Até  que ela encontrou outra pessoa e engatou namoro. Ele soube e, para dar um basta naquele sofrimento, eliminou qualquer possibilidade de encontrar-se com ela. Enquanto isso, ela descobria que o feijão com arroz era até bem gostoso, e pensava cada vez mais nele. Tomou coragem e disse o quanto estava arrependida pelas feridas abertas. “Não me peça perdão por tentar ser feliz. Apenas não desista”, respondeu o garoto, no mesmo instante em que atualizava seu status de relacionamento para “casado” no Facebook.

A menina dos sapatinhos vermelhos

Adoro pessoas que usam sapatos vermelhos. A cor é o símbolo da vida e também do sacrifício. Quem ousa calçar esse tom vibrante, anseia por desafios e liberdade. Passa longe da caretice! Outro dia, admirando as sapatilhas de uma amiga, lembrei do conto sobre a menina pobre que teceu seu próprio sapatinho vermelho. Na história, a criança cria o modelo com retalhos e experimenta um tipo de sensação única de calor e proteção. Ao calçar o par, a vida dela se transforma numa divertida aventura de criatividade e poesia.

Vivi minha infância e adolescência cercada por caixas e mais caixas de sapatos, mas sempre achei estranha a ideia de despir os pés em público para escolher um novo modelo. Acredito que os calçados são símbolos exatos do que somos e desejamos ser. E isso não é qualquer coisa! Certa vez presenciei a mais bizarra situação dentro de uma loja. O homem sonhava em colocar uma bota. Insistiu tanto num modelo tamanho 40, que tiveram que deixá-lo provar. Diante do espelho, vi sua fisionomia se transformar. Saboreou um tipo de prazer imediato. Depois disso, nunca mais duvidei do poder de um sapato. Eles são muito mais do que apenas acessórios de proteção. Além de desejados, transmitem sinais claros de status.  Pessoas sem grana para comprar o modelo da vez, por exemplo, quase sempre passam por situações de desconforto social. Estar bem calçada é, sim, uma distinção.

As mulheres são experts em usar um calçado a seu favor. Alimentam algo chamado fetiche, que nada mais é do que atribuir poderes mágicos e sobrenaturais a um objeto.

Note que ela sempre quer “dizer” algo ao optar por um Luis XV ou quando resolve adotar um chinelo de borracha.  Mas nada mais literal e lúdico do que os meus preferidos, no rubro intenso de Almodóvar. Estes, sim, gritam aos meus ouvidos. Ao cruzar com um par vermelho, imediatamente imagino que aquela pessoa possui alma faminta de alegria e paixão.

Se cada louco tem sua mania, já vou entregando a minha: não consigo conviver com pés pacatos, dominados pela monotonia!

Fã de carteirinha

Minha avó Noêmia Werle não precisou lutar por alguma causa importante para se tornar minha heroína. Só o fato de existir já é um ato grandioso de coragem e, porque não dizer, teimosia. No final dos anos 1960, enquanto os jovens defendiam o sexo livre e a paz no maior movimento de contracultura do mundo, sua grande missão foi manter as quatro filhas em escola particular. Liane, Isolânia, Neusa e Sueli foram criadas com educação de primeira, apesar da baixa renda. Formam um quarteto de mulheres guerreiras, sensíveis e apimentadas, que não desistem de sonhos, dos filhos e de suas paixões. Sem desmerecer os gestos e lições do vô Lauro - meu anjo da guarda e de muita gente por aí - sou fã de carteirinha do comportamento da vó.


Não conheço alguém que consegue ser tão livre e alegre com tanta simplicidade. É capaz de discursar sobre o amor, sem usar nenhuma frase de efeito. Sua inteligência não vem dos bancos da escola, mas da sua essência. Joga para escanteio qualquer rótulo. Quanto mais provocadoras suas atitudes, melhor. Comemora sorrindo ao sinal do aplauso. Sua autoestima dá inveja a qualquer mulher de vinte e poucos! Para ela, não existe a tal “terceira idade”, salvo que agora pode se dar ao luxo de fazer programas sem o marido a tiracolo. Afinal, já viveu o suficiente para pensar e agir como bem entende. Também não é raro vê-la experimentando gírias adolescentes, transformando cada breve diálogo numa aula de humor.

Diante das situações mais difíceis, sai praticamente ilesa. E, pasmem, ainda sonha em ser chamada de “Dona Noêmia”. O que só poderá se tornar realidade, segundo ela, no dia em que receber a tão esperada aposentadoria. E como esse dia demora a chegar! Porém, sua paciência é sábia. Como escudo, abusa da tremenda ânsia de viver. Tem sensibilidade para nos ensinar que o bem se constrói de dentro pra fora. Por isso, cultiva a generosidade em todos os passos que dá. Sem olhar pelo retrovisor

Energia divina

É domingo. Início de setembro. Faz sol na cidade depois de semanas cinzentas. Resolvi preparar o mate logo depois do almoço. Separei um livro de Rubem Alves, alguns bombons e uma velha canga para levar até a pracinha, de onde escrevo esse texto. 
Bate uma brisa no meu rosto, mas o sol quente me deixa sempre aquecida. Por isso resolvo tirar meu All Star dos pés e sentir a terra entre meus dedos. Aqui as crianças ainda brincam de bola sem a vigilância dos pais. As famílias se reúnem para preparar o churrasco e alguns casais aproveitam o tempo bom para caminhar de abrigo pelas ruas de paralelepípedo.

Há algo na atmosfera deste lugar que me atrai como imã. Talvez a palavra que resume essa sensação seja LIBERDADE.

Conheço uma garota que largou o emprego e a faculdade para viver como hippie. Por semanas percorreu o Chile só com o dinheiro que ganhava vendendo pulseiras. Tomava banho raramente, dormia onde podia e não se alimentava direito. Um dia, lembrou que tinha um cartão de crédito na carteira e voltou para o conforto do lar, como se nada tivesse acontecido.

Nunca pensei em ser hippie, mas vivi uma experiência parecida. Durante as últimas semanas, dormi onde me deram abrigo, comi o que me ofereciam. Carreguei apenas uma sacola de roupa e me privei da vaidade. Fui forçada a testar meus limites físicos e psicológicos. Descobri amizades sinceras e o tamanho do amor das pessoas com quem compartilho laços de sangue. Mais do que isso, me dei conta de que a vida me dá a chance de recomeçar a qualquer momento.

Ser capaz de construir uma nova realidade é acreditar na energia. Alguns podem chamar isso de fé ou força divina. Não importa o nome que deem. Energia é tudo aquilo que você gera através do calor das suas mãos, do suor do seu trabalho, do poder do seu pensamento. Também está presente na natureza para que você usufrua da forma que achar que deve. A energia é agente de transformação. Para o bem, ou para o mal.

Quando pisei nessa rua onde escolhi para construir meu novo lar, me senti conectada com algo dentro de mim já esquecido. Como se, de repente, eu me desse conta de que, o que preciso não se resolve com dinheiro, comida na mesa ou roupa lavada. Basta muita vontade de ser feliz. Se ainda não sinto plenamente esse estado de bênção, espero estar chegando bem perto. Aprendi a rezar de olhos bem abertos, observando a beleza das árvores, das flores, o som dos pássaros, o calor do sol e o vento que bate à noite aqui na varanda. Eu sinto que a energia divina está ao meu redor. E o coração já está mais leve e livre para amar o mundo de outro jeito, com mais serenidade, esperança e compaixão pelo próximo.

Entrada de mestre


Todo mundo deve conhecer alguém que invadiu sua vida e virou tudo de cabeça para baixo. Alguns aparecem para lhe tirar do sério, no péssimo sentido. São aqueles que não se importam em saber se gosta de calmaria, já chegam chegando com suas fanfarrices exageradas, impõe a presença aos berros, sugam seu tempo e energia. Mas há outros que surpreendem. Chegam chegando com delicadeza. Para esses eu sempre tenho tempo, olhos e ouvidos.

Há quem saiba como me fazer sentir a pessoa mais felizarda do mundo. Ao lado dela não há como esperar por dias cinzentos. Pode fazer menos 40° graus que parece manhã de primavera. É como me transportar para uma história em quadrinhos e achar que sou a protagonista do enredo.

Uma pessoa assim me dá energia para enfrentar qualquer tsunami.

Ela pode até morar no Alasca, mas sinto sua presença no Japão. Talvez nunca tenha tocado minha pele, mas quanto arrepio é capaz de provocar em mim! Se estou para baixo, me carrega até a beira do mar para que eu abra um baita sorriso. Ela respeita quem sou, o que gosto e o que não gosto, sem que eu precise negociar o tempo todo.

Pode nem ser meu aniversário, mas solta confetes e serpentinas só para me ver feliz.

Só o fato de existir, já me faz acordar com espírito de Vovó Mafalda. E no fim do dia, sinto vontade de olhar para lua e exclamar algo do tipo: “Bah tchê, mas que coisa mais linda!”.

Não sei ao certo se estava procurando, ou se a culpa é desse tal destino, que colocou gente tão mágica no meu caminho... Mas é preciso que eu agradeça:

- Que bom que você existe!

O segredo feminino

O homem só precisa desvendar esse mistério para conquistar uma mulher:


O QUE DESEJAMOS NÃO É O PRAZER. É A FELICIDADE.

Quem entende isso é capaz de construir um relacionamento intenso e profundo com o sexo oposto.



Não esperamos que um homem prove sua virilidade com performances acrobáticas na cama, nos encha de presentes caros ou nos leve ao melhor restaurante da cidade. Nós queremos, simplesmente, que nos vejam como uma pessoa que vale a pena.

Mulheres ficam felizes com pequenos gestos. Um abraço gostoso, um beijo roubado, uma palavra dita na hora certa. Gostamos que nos salvem de baratas nojentas e que hajam como se fossem superheróis domésticos quando uma lâmpada precise ser trocada. Que manobrem nosso carro no estacionamento do shopping e que abram a porta dele para que possamos fantasiar que somos princesas em carroagens medievais.
E, apesar de vestirmos calças que parecem ter pulado do guarda-roupa masculino, ainda adoramos romance e longas preliminares. Esperamos flores no Dia dos Namorados e queremos ouvir "eu te amo" no fim do telefonema.

Podemos até usar o discurso moderno de que somos feministas, queremos liberdade e sexo pelo simples prazer. Mas só vamos nos apaixonar por aqueles que saibam desvendar O SEGREDO sem que precisemos declarar isso por escrito ou lavrar em cartório.

Infância feliz

Adoro as chuvas de verão. É como se cada gota me transportasse diretamente para as tardes da minha infância. Nasci numa lugarejo do interior gaúcho. Nem tão longe dos campos, nem tão perto do asfalto. Sou da geração anos 1980, crescida e criada em apartamento. Mas para a minha sorte, era só atravessar a avenida mais movimentada da cidade para chegar ao meu paraíso particular: a casa dos meus avós maternos.

Gostava de chegar assim, subindo no murinho que separava a rua do jardim, para sentir aquele aroma inconfundível. Em tempo bom ou ruim, a casa sempre tinha cheirinho de comida assando. Pães e cucas saiam às dezenas do forno à lenha dos fundos da casa dos meus avós.

Vó Noêmia sempre me recebia com um abraço apertado, daqueles que nos fazem ficar sem ar. Suas roupas às vezes me fazia espirrar. Tudo lá parecia um retrato fiel dos anos 1960. As poltronas, prateleiras, camas e a geladeira...

No quintal as galinhas do meu vô Lauro andavam soltas, ciscando os milhos num cocoricó sem cessar. Quando batia às cinco, todas desapareciam. Fui saber, num dia qualquer, que elas também tinham seus “apartamentos”, que ficavam nos fundos da casa, perto da arena – algo secreto e tremendamente misterioso para uma criança curiosa.

Fui uma guria medrosa e chorona. Meu tio Cláudio sempre faz questão de me lembrar disso. Por isso quebrei um dente aos sete anos, tentando subir na mureta para escapar do Bolinha, o cachorro. Podre do linguiçinha! Não tinha culpa de nada...

Também adorava dançar. Acho que aprendi com meus queridos avós: um casal pé-de-valsa que é uma beleza!


Outra delícia é lembrar das brincadeiras com as primas. Como sinto saudades! Trepávamos nas árvores da vizinhança (muitas delas plantadas por meu avô), apanhávamos pitanga e goiaba do pé e catávamos os coquinhos que caiam das árvores.

Mas a festa era boa mesmo quando chovia. Longe dos pais, podíamos passar a tarde brincando na rua. Adorávamos pisar nas poças de lama que se formavam nas esquinas e ficar horas embaixo das cascatas que corriam das telhas alheias, embaladas por cantigas de criança e sorrisos de alegria infinita.

Penso que minha vó fazia de conta que nem notava a folia, mas se escondia atrás da trepadeira de Três Marias do jardim para observar, de longe, a criançada faceira. Desconfio... mas tenho quase certeza, pois nunca vi alguém de espírito tão jovem quanto ela!

Depois o vô assobiava alto. Era o toque de recolher. Antes de comer os bolinhos de chuva, tínhamos que correr para o chuveiro. Bem depressa para não gripar! No banheiro entravam todas ao mesmo tempo e a vó ia passando para nós, uma a uma, as toalhas quentinhas. Aí a gente torcia para que os nossos pais tivessem compromisso porque, assim, iríamos montar o acampamento no quarto de visitas.

A vó e o vô empilhavam os colchões e os lençóis e a gente bagunçava tudo com as guerras de travesseiros. Para aquietar os ânimos, a vó deitava ali para contar histórias, mas sempre surgia a mesma dos irmãos Grimm... Enquanto isso eu ficava observando os quadros antigos na parede. Tão bucólicos e singelos quanto aquela casa. E a chuva lá fora dava uma trégua... Pelas frestas da janela dava para sentir o cheiro de orvalho.

Adormecia feliz e despertava apressada, como as galinhas do meu avô. Queria aproveitar tudo de novo, repetidamente, para gravar na cachola todas as cores e formas da minha infância.

Decifre-me se for capaz

Feche os olhos e tente imaginar por um segundo a mulher dos seus sonhos. Pronto, pode abrir. Não sou vidente, mas pode me chamar de Mãe Dinah se essa criatura que permeia seus devaneios românticos não se encaixe no perfil que vou apresentar a seguir.

Nem precisaria começar dizendo que mulher perfeita para você tem que ter um corpo que desbanca qualquer concorrente ao título de musa do seu coraçãozinho. Ela sabe, como ninguém, usar seus atributos físicos na hora de seduzir. Você deduz, só de olhar para ela, que o chão vai tremer quando a sua boca encostar na dela. E se a coisa esquentar, nem vai precisar dizer o que fazer para lhe agradar. Ela comanda!

A mulher que faz tum-tum-tum aí no seu peito enfrenta frio de rachar os beiços numa madrugada de domingo só para dizer que você é o máximo, o melhor! Não traz flores porque acredita que esse é o papel do homem, e sabe muito bem respeitar as diferenças. Ela é romântica sim, e espera que o homem também seja algum dia. Pelo menos um dia! Mas não vai cobrar isso dessa vez...

Aliás, essa garota perfeita não gosta de cobrar nada. Só pede respeito. Não quer saber de namorar, de apresentar você para os pais dela e acha uma chatice ir ao cinema na quarta-feira porque sabe que você gosta mesmo é de futebol (com cerveja e sem ela, de preferência). Também não vai ligar no meio daquela jantinha de amigos e exigir que você fale com ela como se estivesse num jardim de infância. Não! NUNCA! Ela é madura... Deixa que você saia sozinho, sem problema algum.

A linda que não sai da sua cabeça tem vida própria. É independente, tem carro na garagem, mantém o bom humor e está sempre rodeada de amigas interessantes para apresentar aos seus amigos solteiros. O melhor é que você nem precisa fazer esforço para enturmá-la com o pessoal da faculdade. Ela mesmo faz questão de conhecer a galera. E, quando você menos espera, seu melhor amigo estará gargalhando com a sua namorada, como velhos companheiros de infância. Ops, falei namorada? Não, não, querido leitor. A mulher dos seus sonhos nem ao menos pede que a chamem de namorada. Ela quer, simplesmente, ser especial para você. A única que invade seus pensamentos na madrugada e dá tranquilizantes aos malditos - e chatos - carneirinhos.

É, meu amigo... Eu entendo! Deve estar desiludido, pensando que estou coberta de razão. Essa realmente seria a mulher ideal para você... Pena que não é real.

Pois pode acreditar, querido! Essa mulher existe e é minha amiga do peito. Só não passo o telefone dela porque no momento está muito ocupada tentando achar o homem perfeito. E esse, certamente, não é você.

O homem perfeito


Não assisti ao filme 2012 e nem vou. O mundo está acabando? Não me contem. Prefiro viver a trivialidade do dia a dia do que mergulhar numa sucessão de pensamentos negativos. É claro que me preocupo com o futuro do planeta, mas gosto mesmo é de penetrar nas questões existenciais. “De onde viemos? Pra onde vamos? Quem somos?” Isso me interessa! Acrescentaria nesse conjunto de dúvidas filosóficas, uma pergunta de extrema relevância: afinal de contas, o que as mulheres procuram num homem?
Sou do tipo que gosta de flores, mas detesta pessoas melosas demais. Não prego moralismo, mas também não tolero a traição. Tento encontrar um meio termo entre os valores do passado e do presente. Não gosto de revoluções. Só que nunca entendi muito bem como funciona essa história de ficar sem se envolver emocionalmente. Quando resolvo beijar na boca, quero beijar, ao mesmo tempo, a alma da pessoa. Nem todo mundo entende essa entrega, e eu continuo insistindo no erro toda vez que encontro alguém que faça meus olhos brilharem. O problema começa a aparecer quando descubro que entrei na fila das apaixonadas, junto com meia dúzia de mulheres que caíram no papo do mesmo membro da comunidade pré-histórica que habitava as cavernas: o troglodita.
Os trogloditas não entendem as mulheres. Falam uma língua arcaica, de difícil compreensão. Só respeitam seus instintos selvagens: comer, beber e dormir (e fazer sexo entre uma coisa e outra). Não observam a diferença entre mulheres refinadas ou sem cultura, só enxergam peitos e bundas. E com quem eles casam? Com as que têm os melhores peitos e as mais fabulosas bundas, ora!
A maioria da espécie feminina é caidinha por esse tipo extravagante porque, no fundo, ele sabe como conquistar uma mulher. Coloca comida no prato (é caçador por natureza), protege a família com unhas e dentes e sabe, como ninguém, puxar seu cabelo na hora H. No sentido figurado, claro... Se bem que a violência física, ainda que, em alguns casos, fique restrita à cama, está inserida na nossa cultura. E muitas toleram!
As mulheres se entregam ao troglodita porque veem nele uma espécie de guardião da sua prole. Aquele que, ora pode dar segurança, ora pode dar prazer. Basicamente a mulher procura isso num homem. Só que, algumas exceções, como eu, querem devorar a psiquê da pobre criatura, que nunca vai entender por que não conseguiu satisfazê-las por completo. Quem dera poder digitar no Google “O Homem Perfeito” e, por obra do destino cibernético, encontrar o perfil daquele que me entenda de verdade. Que me dê o coração, e não só a carne. Que admita ser mulherengo, mas escolha ficar só comigo. Que me dê atenção, e não só algumas horas de paixão. Que me traga flores de verdade, e não fique só fazendo promessas. Deve existir! Vou tentar nesse instante.

Ps: acabo de digitar "O Homem Perfeito" no Google imagens. Aparece essa ilustração. É cômico!

Cadê?



Sexta-feira à noite estava numa roda de amigas quando uma delas dispara a máxima: “está faltando homem!”. Imediatamente larguei o copo e rebati. Não é que faltam homens, querida. Nós é que estamos cada vez mais seletivas. Ninguém se opôs ao comentário, mas um silêncio se instalou. Justifiquei. Mulher que é mulher sabe como dá trabalho ficar atraente. E nem me refiro às renúncias que todas fazem em nome da vaidade, mas às horas dedicadas ao intelecto.
Se me preocupo em devorar todo jornal O Informativo do Vale no café da manhã, ler o best-seller do momento e ocupar meu domingo com leituras sobre Platão, não vou querer romance com um cara que só sabe falar sobre a tabela do Campeonato Brasileiro. Ok, também adoro futebol, mas será que dá pra tentar conversar sobre algo mais interessante no primeiro encontro? Meninos, vou explicar: inteligência é afrodisíaca!
Bonitões querendo uma noite de prazer, eu encontro em todas as esquinas. Marmanjos endinheirados tem assim, oh! Agora homens que saibam conduzir uma conversa agradável, que não tentem avançar o sinal logo na primeira piscadela, vamos combinar, esses são raros.
Outro dia li uma reportagem sobre o homem durão versus o sensível. Um grupo discutia se as mulheres ainda preferem o primeiro ou se estavam dispostas a encarar o segundo. Resultado: mulheres gostam mesmo daqueles que a tratam como objeto de uso particular. Ora bolas, que besteira é essa? Não me incluam nas estatísticas. Prefiro os mais doces. O durão quer comida no prato, o sensível prepara uma gororoba especial. O primeiro é machista, o segundo entende a queima dos sutiãs. Durão que é durão sente ciúmes até do primo gay. O sensível dá liberdade para passar o feriado na praia sem nenhum porém.
Amigas! Não faltam homens por aí. Faltam aqueles que compreendam nossas infinitas particularidades e inquietudes. Um bom conselho para atrair ótimos pretendentes? Se valorize. Não adianta querer procurar o príncipe encantado se tudo em você denota o contrário. É possível parecer supersexy sem precisar mostrar a calcinha. Estar atenta ao que acontece ao seu redor no barzinho também é importante. Como vai querer encontrar o homem da sua vida se não para de analisar o novo corte de cabelo daquela rival dos velhos tempos? Ah! Se tiver mais de 35, nada de ficar fazendo pose com biquinho ou pirulito na boca para postar no orkut. Assim você só vai atrair os amigos de sua filha adolescente. Homens de verdade estão por aí, em toda parte. É só abrir um sorriso e ligar as anteninhas.

É melhor conversar com uma planta


Há dias tento encontrar um amigo para contar as minhas histórias. E nem a minha amiga, que é psicóloga, não tem tempo para me ouvir. Não quero encontrar soluções para crises existenciais, longe disso. Eu até gosto de conviver com algumas dúvidas para, mais adiante, esbarrar com as respostas. Mas hoje, só gostaria de compartilhar minhas conquistas. Não as grandes, mas as pequeninas. Aquelas que construímos com passos de formiga e que nos dão o maior prazer de vê-las acontecer. Mas vibrar com quem, se ninguém quer ouvir? Tem gente que até pergunta: “E aí, quais são as novidades?”, mas quem disse que estão dispostos a ouvir? O olhar desvia para o horizonte, vejo sua atenção ao relógio e, no pior sinal, um bocejo entrega o total desinteresse do ouvinte.
Você pode ser a garota mais bem resolvida do mundo, mas um dia vai sentir a mesma necessidade. Até os homens precisam do ouvido alheio para contar sobre sua vida. Não falo daquela ânsia de querer se gabar de tudo. Gente assim é chata pra caramba, e eu, que gosto de ouvir qualquer tipo de história, nessas horas dou uma de “autista” pra não fazer do meu ouvido um penico.
Confesso que nunca conversei com passarinhos, gatos e cachorros. Não tenho muita intimidade com a natureza animal. Nem consigo estabelecer um relacionamento muito íntimo com as árvores, flores e plantinhas ao meu redor. Admiro-as e isso basta. Elas entendem que eu as respeito e acho que estamos bem resolvidas. Também ando em falta com o cara lá de cima. Mas acho preciso começar a estabelecer contato. Ou, em último caso, ligar para o programa Fala que Eu Te Escuto, mandar um e-mail para a astróloga da revista Caras, ou entrar em algum chat da internet.
Seria mais sensato sentar no divã de algum psicanalista. Aliás, assisti ao filme Divã, que conta a história de Mercedes, uma mulher de 40, casada e mãe de dois filhos que decide, mesmo sem saber o porquê, procurar um psicanalista. E, assim, o que antes era apenas uma curiosidade, se transforma em uma experiência devastadora, que provoca uma série de mudanças em sua vida cotidiana. No divã, Mercedes questiona o seu casamento, a realização profissional e seu poder de sedução. As revelações da senhora para o analista, assim como as conversas com a melhor amiga, Mônica, dão novo rumo à vida dela, que a princípio parecia boa, estável, mas sem grandes emoções.
Com ou sem um profissional no meio, as grandes transformações acontecem dessa forma, como uma boa conversa. Fico me questionando se as pessoas não andam meio relapsas com a vida dos amigos, vizinhos e da família. Não sei você, mas eu às vezes até sinto medo de abrir a boca porque tem gente que acha que vou “roubar” algo delas. Seja o seu tempo ou sua receita de sucesso. Nada disso, gente. Vou contar, quero apenas contato. Olho no olho, abraço forte, boas risadas. Se o assunto render bons conselhos ou lições de vida, e eu puder contar sobre as coisas que alimentam minha alma, ótimo. Se não, valeu pela companhia e tchau. Só o encontro já é tão raro que merece ser respeitado como algo precioso.

Ps: Pasmem, essa plantinha aí conversa com o dono via Twitter....

Meu lado Amélie



Provavelmente você nunca tenha ouvido falar do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, mas esta película francesa de Jean-Pierre Jeunet é imperdível. A produção, concebida para encantar os sentidos do espectador, mostra a vida da garçonete Amélie, uma jovem moradora do bairro parisiense Les Abesses que passa boa parte do cotidiano envolvida com uma espécie de jogo, tentando consertar problemas dos que a rodeiam.
Amélie vivencia situações inusitadas, mas sempre acha uma solução criativa para elas. A clássica é a do anão viajante. Na tentativa ensinar o pai a ter mais entusiasmo pela vida, resolve roubar o anão de seu jardim e entregá-lo a uma amiga aeromoça. A partir daí ele começa a receber cartões postais com a fotografia do “amigo” em vários lugares do mundo.
No orkut você vai encontrar uma comunidade muito legal sobre o tema. No fórum os participantes contam suas pequenas traquinagens cotidianas inspiradas na protagonista do filme. São os pequenos gestos que identificam um “amelístico”. Para ser um, você precisa ficar no anonimato. A ideia é encher a vida dos outros de poesia, ou provocar sorriso, um momento de reflexão, ou um breve suspiro na alma.
A vida seria tão mais leve com Amélies por aí... Amélies deixam recados nos livros da biblioteca para que a próxima pessoa a folheá-lo surpreenda-se. Amélies colocam rosas nas portas dos vizinhos desconhecidos. Amélies criam enigmas, escrevem poemas e mandam biscoitos da sorte anonimamente para os amigos.
Tem uma história que adoro de um senhor que guardava todas as sementes que recolhida em seu bolso, mas não para senti-las entre seus dedos (esse já seria um prazer Amélie), mas para plantá-las na primeira oportunidade. Não é um hábito bacana?
Ser Amélie também é ter sensibilidade para perceber que a felicidade está nas coisas simples do cotidiano. Eu, por exemplo, sinto uma alegria especial ao descer uma ladeira de bicicleta sem frear; escutar Beatles no volume máximo; vestir o pijama ao chegar em casa; esquentar água com canela e espalhar o vapor pela casa; esconder o chocolate para comer sozinha mais tarde; colecionar recadinhos de amor para reler tempos depois; guardar antigas fotos 3x4; sentir o cheiro da grama molhada depois de uma tarde de chuva de verão; tomar banho no escuro num entardecer de primavera, só com os últimos raios que vem da janela; e observar os vizinhos pela fresta, imaginando como são e o que fazem, ou até criar diálogos para eles.
Experimente fazer uma lista do que você gosta. Tenho certeza que vai entender que são estes pequenos prazeres que fazem a vida ficar mais colorida. Quem sabe você também descobre seu lado Amélie e aproveita para inventar peraltices amelísticas por aí. Positivas, é claro.




A Quai, de Yann Tiersen. Trilha sonora do filme.




La Valse D' Amelie, de Yann Tiersen. Trilha sonora do filme

Amor livre



O pessoal lá de casa já não estranha mais quando comento com amigos que não pretendo me casar e nunca me imaginei de véu e grinalda. Acredito nas histórias de amor, mas acho que a sociedade está preparada para viver experiências muito mais significativas se conseguir se livrar da crença de que a vida a dois é a única forma de ser feliz. E isso não é só eu quem digo, mas gente de gabarito como o psiquiatra paulista Flávio Gikovate, autor do livro Uma História do Amor... Com Final Feliz.

Fiquei surpresa e ao mesmo tempo entusiasmada ao saber que já existem grupos na internet que discutem o chamado “poliamor”. Os membros destas comunidades não têm vergonha de dizer que podem amar seu parceiro fixo e também as pessoas com quem tem relacionamento extraconjugal. Alguns até admitem relacionamentos amorosos múltiplos em que há sentimento de amor recíproco entre todos os envolvidos. O comportamento é revolucionário, mas pertinente.

Se estamos cada vez mais preocupados em agradar nosso ego, buscar o autoconhecimento e experiências mais libertadoras em vez de repressoras, por que ainda agimos como homens das cavernas? Queremos que os parceiros correspondam às nossas expectativas em todas suas atitudes. Sentimos ciúmes, com medo da perda, sentimos raiva quando o parceiro pula a cerca. Uma verdadeira prisão emocional que não leva a nada.

Não sou a favor da sacanagem, mas acho que ser monogâmico deve ser uma opção e não uma imposição dentro das relações. É uma pena saber que muita gente deixa de viver lindas histórias só para não ferir esse código. Ideal seria se pudéssemos amar sem preconceitos nem amarras. Deixar o coração livre para encontrar várias paixões caminho afora.

A hora é agora!


Tem um ditado que diz, “Quando a água bate na cintura, está na hora de aprender a nadar”. Observe bem ao seu redor. Não parece que estamos afogando em tanta desgraça? São os conflitos sociais, o aquecimento global e agora esse maremoto financeiro que não dá trégua. Pior que isso. Todas as discussões realmente importantes sobre o planeta morreram na praia.
Já tem gente por aí dizendo que estamos vivendo uma decisiva transição em nosso processo evolutivo. Não é papo de maluco, não! Se pensarmos bem, até que essa história tem fundamento. É só analisar o comportamento das pessoas. Vejo muitos amigos adotando posturas positivas, em prol da coletividade. Sair de bicicleta em vez de ligar o motor do carro; escolher embalagens ecologicamente corretas no supermercado; protestar contra o corte de uma árvore...Também estamos aplaudindo cada vez mais aqueles que, por conta de seus valores éticos e morais, abrem mão do luxo e glamour. (apesar de continuarem no anonimato).
Barak Obama disse e todo planeta ecoou: “sim, nós podemos!”. O barquinho só vai afundar se a gente quiser. E a crise que vivemos até parece uma boa chance para rever conceitos. Chegou a hora e a vez de usar o autoconhecimento para de fato avançar. Em uma leitura sobre o estudioso da milenar cultura andina, Zane Curfman, entendi que para evoluir é preciso resgatar raízes. Até achei contraditório, mas tem um fundo de verdade nisso. A gente quase não percebe, mas cultivamos no dia-a-dia alguns costumes que dão o maior sentido para nossa história. Se preservarmos essas tradições, podemos proporcionar aos outros uma grande oportunidade de aprendizado.
Aí vai a minha dica: passem mais tempo com seus avós. Eles são capazes de ensinar coisas preciosas sobre essa louca vida. Um verdadeiro manual de “natação” ambulante. Se você não obter revelações muito entusiasmantes, pelo menos pode aprender, por exemplo, como fazer uma boa rosquinha de polvilho e leite. A da minha vó é ótima e já está no meu livro de receitas para repassar aos meus futuros filhos. E o melhor, vale por mil palavras.

Protagonista da vida


O amor é um filme estrangeiro sem legendas. Você vai ficar boiando do início ao fim se não prestar atenção ao tom de voz e linguagem corporal dos personagens. Se a mocinha mexer no cabelo, pode apostar, está querendo impressionar o galã. E se ele tocar nas madeixas dela, certamente entendeu o recado. Agora, se os olhos dele desviarem dos dela, bem na hora do "Eu te amo"... Ah! minha amiga, pode dar pause. Essa história não terá final feliz.
Na vida real, nem sempre percebemos esses sinais impalpáveis. Acontece que, muitas vezes, o amor cai de pára-quedas quando ainda nem chegamos na casa dos 20. Não é raro quem se pergunte se aquela palpitação no peito é amor de verdade ou um genérico dele. Por via das dúvidas, chamamos aquilo de paixão. E seguimos em frente, querendo descobrir a fórmula mágica.
Depois de experimentar alguns beijos e amassos diferentes, pinta a sensação estranha de que nada faz sentido sem atar um compromisso. Nessa fase a galera sai à caça de um(a) namorado (a) sério (a), que preencha os requisitos básicos. Melhor ainda se ele torcer pelo time do papai, porque assim fica mais fácil do velho gostar do moço logo de cara. Ou se ela fizer o tipo "boa menina", não fumar nem sair de casa de minissaia.
Se até o cachorro gostar do pretê, pode apostar que todo mundo vai meter pressão para vocês se casarem. Vão namorar mais um, dois ou três anos, até um dos dois arranjar um bom emprego ou terminar a faculdade. Quando isso acontecer, a marcha nupcial já estará zunindo em seus ouvidos.
Replay. Volta a fita. Tá, mas e o amor? Nesse período, você vai achar que esse carnaval todo é o amor. Talvez não sinta mais a tal palpitação no peito, nem questione se o seu par perfeito mora na África, ganhe a vida tocando violão em Paris, ou freqüente o grupo de meditação transcendental da sua amiga. Para você, felicidade mesmo é comprar os móveis para a casa nova, fazer uma jantinha para o namorado e dormir de conchinha.
Sim, tudo isso é lindo e romântico, e eu também adoro, mas é importante parar para pensar se não está programando os pensamentos no automático, sem questionar as mil possibilidades da vida. O natural é deixar que o amor dê as caras, seja como for.
Não há regras, você pode ser menino e se apaixonar por meninas, ou se apaixonar por meninos. Pode ser menina e sentir atração por meninas. Pode ter 16 e querer uma pessoa bem mais velha. Pode ter 35 e descobrir que gosta de alguém de 25. Vale também casar e querer morar separado, ou nunca casar e querer morar juntinho. Mas é preciso cuidar para que aquele alguém - que invade seus pensamentos volta e meia-, não se torne um mero coadjuvante do seu filme. Atenção aos sinais, eles são importantes para traduzir o amor.
Foto: Beijo do filme Breakfast at Tiffanys

O “piti” nosso de cada dia


“Só o vexame é autêntico num homem”. Falou e disse, Veríssimo. Não tem situação melhor do que essa para conhecer o lado B de alguém, ou descobrir o ridículo que habita nosso corpo. O descontrole emocional pode ser até nocivo, mas cá entre nós, é muito engraçado ver uma pessoa dando “piti” por aí.
Quer assistir de camarote a um? Então vá ao supermercado. Mães descontroladas tentando devolver para as prateleiras as porcarias que o filho pentelho colocou no carrinho...Um puxão de orelha aqui, outro “para-te quieto” ali... E você que pensava que aquela dondoca era um exemplo de educação! Sem falar nas peruas impacientes na fila do caixa. A-do-ro!
Outro lugar fabuloso para presenciar um vexame inesperado é no salão de beleza. Bem, sabe como são as mulheres, é só mexer com a nossa frágil auto-estima que colocamos nossas garras (vermelhas e bem afiadas) em ação! Os cabeleireiros também têm expertise nesse assunto. Já ouvi tanta história cabeluda ... Mas eu não conto!
Agora você, caro leitor, há de concordar comigo e com Veríssimo. A melhor situação para desvendar nosso verdadeiro “eu” é quando estamos caidinhos de amor. Aquele babão que treina mil vezes o que vai dizer ao amado depois do alô, é você. O “imbecil essencial”, como diria meu escritor favorito.
Por isso, desconfie de alguém muito comedido, que nunca deu um “piti” na vida. Ainda mais se ele for político. Porque tudo mais é fingimento, um disfarce poderoso para enganar os bobos.

Minha `Laxôda` querida


Se alguém fizer uma enquete aqui na redação para saber quem lembra do Guapuruvú da Júlio de Castilhos, talvez uns cincos dos 19 repórteres digam que recordam. Não por esquecimento. A maioria dos meus colegas é oriunda de outras cidades e não assistiram ao corte daquela bela árvore em nome do progresso. (Na verdade, quase ninguém viu porque a derrubaram em surdina, enquanto a sociedade se divertia em um baile de debutantes. Eu estava lá e protestei).

Assim como os jornalistas, muitos profissionais migram da capital para o interior em busca de trabalho e qualidade de vida. Boa parte desse pessoal se depara com a triste realidade da região. Falta arte, sobram postos de gasolina. Faltam ciclovias, sobra asfalto. Sobram rostinhos bonitos, falta papo inteligente. Faltam restaurantes, sobram hotdogs ambulantes. Sobram ofertas no comércio, falta atendimento diferenciado. E por aí vai.

Às vezes me perguntam de quem sou filha, a qual família pertenço. Também conheço quem vive para manter seu sobrenome estampado em algum outdoor. Um mundo onde você precisa parecer, ao invés de ser. Para quem vem de fora, o choque cultural é inevitável e arrasador. Mas ainda têm as praças, as belas paisagens do campo, os jardins hollywoodianos do Alto do Parque... Uma beleza intangível, amos combinar.

Soube ainda no ano passado que o diretor de cinema Esmir Filho escolheu filmar seu primeiro longa-metragem na região. Tudo por causa do meu amigo, o lajeadense Ismael Caneppele. Em Os Famosos e os Duendes da Morte, o ator e escritor conta a história de um jovem de 17 anos que enfrenta o tédio de morar em uma cidade do interior. Prova de que até a nossa “Laxôda” querida pode inspirar poetas e transformar o “escarro” em algo agradável aos sentidos. Quando o filme estrear no cinema quero estar sentada na primeira fila. Espero que até lá alguém dê jeito naquelas poltronas horríveis e na péssima sonoplastia da única sala de cinema da cidade.

A quem amamos


Engana-se quem pensa que o casamento relâmpago é fenômeno atual. A prova disso é união dos meus avós Noemia Gregory e Lauro Werle. Foi numa festa no interior de Estrela, na década de 50, que os dois trocaram os primeiros olhares. O feitiço do amor fez o casal selar a união seis meses depois.
Uma casinha à beira da BR 386, em Lajeado, na antiga Estrada da Produção, foi o cenário do primeiro ano de casamento. Depois eles construíram um singelo lar no Bairro Americano. Nasceu Liane, Isolânia, Neusa e Sueli. Um quarteto educado com a inflexibilidade do Lauro e a doçura da Noemia. O resultado é uma mistura de mulheres guerreiras, sensíveis e apimentadas, que variam de humor como trocam de calcinha, mas que não desistem de sonhos, não fraquejam na educação dos filhos e são apaixonadas pela família.
Vovô e vovó vivem na mesma rua, no mesmo bairro, há quase 50 anos. Por lá fizeram muitos amigos, como o Escobar, a Hedi, a Marlene e a Gladis. Aquela expressão “acordar com os galos” pode ser empregado ao cotidiano dos dois porque verdadeiramente eles acordam com estas aves de crista carnuda, asas curtas e largas. Aliás, a iguaria feita com elas pode ser apreciada com sabor na casa dos meus avós.
No primeiro cacarejo, Lauro está de pé. Ele liga o radinho na Independente e escuta as primeiras notícias sorvendo um chimarrão enquanto a Noemia prepara a mesa do café da manhã. Sem pressa para guardar as schimiers, a vó arruma a casa e o vô vai conferir se as galinhas botaram ovos.
Às vezes ela vai fazer ginástica, às vezes ele vai até a casa onde nasceu. Ela não falta aos jogos de loto, ele ainda anda com seu fusquinha.
O fandango é a festa preferida do casal. O vô não dispensa a cachaça e a vó molha o bico com a cervejinha. Mas o bonito é vê-los bailando. Não importa se é vanerão, chote ou milonga, eles sabem todos os passos de cor e salteado. A cada rodopio, um sorriso ou assobio.
Hoje eles celebram o amor ao lado das filhas, dos genros, dos netos e amigos. Através deste texto tento homenagear a quem só tenho a agradecer. Pela dedicação, pelos ensinamentos e pelo carinho.

Mulheres de preto



Lembro-me bem do dia em que fui levada ao médico para cuidar da minha primeira dieta. Tinha apenas nove anos de idade. Chorei desesperada quando tive de subir na balança completamente nua. Naquele dia me ensinaram a menosprezar meu corpo.
A sociedade é mesmo cruel com as mulheres. Enquanto poderíamos estar envolvidas com idéias criativas, somos pressionadas a gastar tempo preocupando-se com a quantidade de alimento que consumimos ou tendo de provar nosso valor com os números da balança.
O resultado? A psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés define bem no livro Mulheres que Correm com os Lobos: uma nação de garotas altas corcundas, de baixinhas sobre pernas de pau, mulheres avantajadas vestidas como se estivessem de luto, de outras magras que tentam se inflar como serpentes e vários outros tipos mulheres que se escondem.
Concordo quando diz que julgar ou difamar o corpo herdado é criar gerações de pessoas ansiosas e neuróticas. Defender um tipo de beleza é não observar o universo. Grandes ou pequenas, largas ou estreitas, altas ou baixas, cada qual tem seus encantos.
Nunca seremos vistas sem preconceitos se nos submetermos às constantes pressões coletivas, esculpindo o corpo conforme a moda. Prefiro gastar calorias com a felicidade, caminhar com os pés firmes no chão em vez de me equilibrar sobre saltos Luís XV. E mesmo sem palanque, prometo abolir o pretinho básico e dar mais atenção ao amor-próprio, porque a vida vai muito além da fita métrica.
" Desejo a você

Fruto do mato

Cheiro de jardim

Namoro no portão

Domingo sem chuva

Segunda sem mau humor

Sábado com seu amor

Filme do Carlitos

Chope com amigos

Crônica de Rubem Braga

Viver sem inimigos

Filme antigo na TV

Ter uma pessoa especial

E que ela goste de você

Música de Tom com letra de Chico

Frango caipira em pensão do interior

Ouvir uma palavra amável

Ter uma surpresa agradável

Ver a Banda passar

Noite de lua Cheia

Rever uma velha amizade

Ter fé em Deus

Não Ter que ouvir a palavra não

Nem nunca, nem jamais e adeus.

Rir como criança

Ouvir canto de passarinho

Sarar de resfriado

Escrever um poema de Amor

Que nunca será rasgado

Formar um par ideal

Tomar banho de cachoeira

Pegar um bronzeado legal

Aprender um nova canção

Esperar alguém na estação

Queijo com goiabada

Pôr-do-Sol na roça

Uma festa

Um violão

Uma seresta

Recordar um amor antigo

Ter um ombro sempre amigo

Bater palmas de alegria

Uma tarde amena

Calçar um velho chinelo

Sentar numa velha poltrona

Tocar violão para alguém

Ouvir a chuva no telhado

Vinho branco

Bolero de Ravel

E muito carinho meu." Desejos, Carlos Drummond de Andrade
Foto: Carpe Diem, por Taciana Colombo



" Eu ando pelo mundo

prestando atenção em cores

que eu não sei o nome

cores de almodóvar

cores de frida kahlo, cores (...)"


Foto: festa da Padroeira, Canudos do Vale

" (...) Passeio pelo escuro eu presto muita atenção no que meu irmão ouve e como uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora eu quero chegar antes pra sinalizar o estar de cada coisa filtrar seus graus (...)"
Essa imagem eu fiz da Via Sacra em Forquetinha


" Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela,
Pela janela
Quem é ela, quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado"
Esquadros, Adriana Calcanhoto

Fiz essa imagem no circo de Bremmer

Por uma vida menos ordinária


Pelo menos uma vez na vida troque de namorado. Experimente o sabor de um beijo diferente, colecione novos abraços, novos e-mails de amor, uma cama mais fofinha que a sua. Comemore sem motivo. Tire a etiqueta daquela blusa que você escondeu no fundo do armário, pinte o cabelo de vermelho, amarelo, laranja e saia para balada. (Não esqueça da camisinha!). Use o olfato. Sinta a delícia do cheiro de um café passado pela sua mãe, das flores da primavera, a grama molhada pela chuva, um incenso de canela queimando num domingo à tarde depois de um dia de amor.
Pelo menos hoje não generalize. A roupa que você veste pode dizer algo sobre o que gosta, mas não diz nada sobre quem você é. Seja otimista. O seu pai lhe viu agarrando o vizinho e deu bronca? Pense que ele podia ter lhe pego no flagra naquele sábado à noite em que você fez stripe na sacada do apê. Seja a favor da liberdade de escolha. Chega de tentar convencer o amigo a votar no fulano. Esse blá-blá-blá dá vontade de vomitar. Escolha seu lado. Se ficar em cima do muro se tornará um Zé ninguém.
Pelo menos um dia conheça, pelo menos, seu bairro. Cada lugar tem suas adoráveis particularidades. Que referência vai guardar para contar aos seus filhos sobre como era a cidade quando jovem? Impressões da vida valem mais do que capítulos de um livro. E escreva sobre...Qualquer coisa vale! O importante é colocar as idéias no papel. (aconselho o banheiro, esse lugar é mágico para se ter idéias!). Já leu sobre o ócio criativo?
Pelo menos amanhã mude o script! Desplugue-se. Vá ler um livro, andar de bicicleta, caminhar no parque, encontrar os amigos...Tire o chinelo, troque a calça por uma bermuda, esqueça o sutiã, o par de botas, a maquiagem. Esqueça da fofoca, da mesquinharia, da notícia ruim do jornal, da novela das oito e daquele cara que nem olha para você... Por uma vida menos ordinária. Por alguém que merece só o que há de melhor no mundo: você!

Semideuses

Tu já deve ter lido algum poema, frase ou até mesmo uma letra de música que te fez pensar: porque eu não tive essa idéia antes? Eu, por exemplo, gostaria de ter escrito o Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa.O poeta português usada heterônimos como de Álvaro Campos, que assina o texto referido, para criar outras vidas e tratar de temas subjetivos. O escrito começa assim: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”. Adiante confessa que já foi detestável, falou muitas coisas horríveis, tomou atitudes insanas, foi grosseiro, arrogante, mesquinho. Mas de todas as pessoas que conheceu, nenhuma contou a ele um ato ridículo – nunca foram senão príncipes na vida.
Gosto desse texto porque traz uma mensagem de humildade. É um ato de bravura confessar que somos covardes em certos momentos da vida, que fomos mesquinhos com as pessoas, que sofremos a angústia de pequenas coisas, que fugimos do soco, que pedimos dinheiro emprestado e não pagamos, que traímos, pecamos, vacilamos.
Afinal, somos seres humanos ou semideuses? “Onde é que há gente no mundo?”, diria Pessoa. Queria ter escrito esse poema porque, bem como o autor, estou farta de ouvir histórias lindas de gente perfeita. Como repórter, quero quem me confesse não um pecado, mas uma infâmia, não uma violência, mas uma covardia, que me diga pelo menos uma vez, que foi gente como a gente.
Semideuses não choram, não sentem ciúmes, não pedem desculpas, não aceitam derrotas – são intocáveis. Onde estão as pessoas que dão a cara para bater? Que se alimentam de paixão, que despertam verdade, que discutem a realidade? O que vejo por aí são vidas de plástico.
Não se escutam mais canções como as de Cazuza. Quase não vejo jovens nas ruas empunhando bandeiras – a não ser dos times de futebol. A Globo não pede mais desculpas no ar por suas gafes...
Orkut é a melhor propaganda para os semideuses. Acreditam que ali estão se revelando para o mundo. Mal sabem que essa é uma maneira de camuflar sua própria vida, escondendo os defeitos e exaltando só as qualidades. Proponho um desafio a ti: bote a cara no mundo! Não tenhas medo de mostrar quem és.
Ora, quem se esconde não vive jamé!

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