Adoro as chuvas de verão. É como se cada gota me transportasse diretamente para as tardes da minha infância. Nasci numa lugarejo do interior gaúcho. Nem tão longe dos campos, nem tão perto do asfalto. Sou da geração anos 1980, crescida e criada em apartamento. Mas para a minha sorte, era só atravessar a avenida mais movimentada da cidade para chegar ao meu paraíso particular: a casa dos meus avós maternos.
Gostava de chegar assim, subindo no murinho que separava a rua do jardim, para sentir aquele aroma inconfundível. Em tempo bom ou ruim, a casa sempre tinha cheirinho de comida assando. Pães e cucas saiam às dezenas do forno à lenha dos fundos da casa dos meus avós.
Vó Noêmia sempre me recebia com um abraço apertado, daqueles que nos fazem ficar sem ar. Suas roupas às vezes me fazia espirrar. Tudo lá parecia um retrato fiel dos anos 1960. As poltronas, prateleiras, camas e a geladeira...
No quintal as galinhas do meu vô Lauro andavam soltas, ciscando os milhos num cocoricó sem cessar. Quando batia às cinco, todas desapareciam. Fui saber, num dia qualquer, que elas também tinham seus “apartamentos”, que ficavam nos fundos da casa, perto da arena – algo secreto e tremendamente misterioso para uma criança curiosa.
Fui uma guria medrosa e chorona. Meu tio Cláudio sempre faz questão de me lembrar disso. Por isso quebrei um dente aos sete anos, tentando subir na mureta para escapar do Bolinha, o cachorro. Podre do linguiçinha! Não tinha culpa de nada...
Também adorava dançar. Acho que aprendi com meus queridos avós: um casal pé-de-valsa que é uma beleza!
Outra delícia é lembrar das brincadeiras com as primas. Como sinto saudades! Trepávamos nas árvores da vizinhança (muitas delas plantadas por meu avô), apanhávamos pitanga e goiaba do pé e catávamos os coquinhos que caiam das árvores.
Mas a festa era boa mesmo quando chovia. Longe dos pais, podíamos passar a tarde brincando na rua. Adorávamos pisar nas poças de lama que se formavam nas esquinas e ficar horas embaixo das cascatas que corriam das telhas alheias, embaladas por cantigas de criança e sorrisos de alegria infinita.
Penso que minha vó fazia de conta que nem notava a folia, mas se escondia atrás da trepadeira de Três Marias do jardim para observar, de longe, a criançada faceira. Desconfio... mas tenho quase certeza, pois nunca vi alguém de espírito tão jovem quanto ela!
Depois o vô assobiava alto. Era o toque de recolher. Antes de comer os bolinhos de chuva, tínhamos que correr para o chuveiro. Bem depressa para não gripar! No banheiro entravam todas ao mesmo tempo e a vó ia passando para nós, uma a uma, as toalhas quentinhas. Aí a gente torcia para que os nossos pais tivessem compromisso porque, assim, iríamos montar o acampamento no quarto de visitas.
A vó e o vô empilhavam os colchões e os lençóis e a gente bagunçava tudo com as guerras de travesseiros. Para aquietar os ânimos, a vó deitava ali para contar histórias, mas sempre surgia a mesma dos irmãos Grimm... Enquanto isso eu ficava observando os quadros antigos na parede. Tão bucólicos e singelos quanto aquela casa. E a chuva lá fora dava uma trégua... Pelas frestas da janela dava para sentir o cheiro de orvalho.
Adormecia feliz e despertava apressada, como as galinhas do meu avô. Queria aproveitar tudo de novo, repetidamente, para gravar na cachola todas as cores e formas da minha infância.